Da recompensa e castigo do Ego

Submitted by Estante Virtual on Sun, 12/02/2012 - 20:14

P: Ouvi você dizer que o Ego — qualquer que tenha sido a vida da pessoa na qual se encarnou - - jamais está sujeito a qualquer castigo post-mortem.

T: Nunca, salvo em casos muito raros e excepcionais, sobre os quais falaremos, já que a natureza do "castigo" em nada se relaciona com nenhum de seus conceitos teológicos acerca da condenação.

 

P: Mas se é castigado nesta vida pelas más ações cometidas em uma vida anterior, então, também deveria haver recompensas para este Ego, seja aqui, ou depois de desencarnado.

T: E assim sucede. Se não admitimos nenhum castigo fora desta terra, é porque o único estado que o Eu Espiritual conhece na vida futura, é o da felicidade sem sombras.

 

P:  O que quer dizer isto?

T: Simplesmente que não podem os crimes e pecados cometidos em um plano de objetividade e em um mundo de matéria, receber nenhum castigo em um mundo de pura subjetividade. Não acreditamos em inferno ou paraíso como localidades; em nenhum fogo objetivo do inferno nem em alguma Jerusalém com ruas incrustadas de safiras e diamantes. Cremos em um estado post-mortem ou condição mental, parecida com aquela em que nos encontramos durante um sonho lúcido. Acreditamos em urna lei imutável de amor, justiça e misericórdia absolutos. E crendo nisto, dizemos: seja qual for o pecado, e por piores que sejam os resultados da transgressão kármica original dos Egos na carne[1], nenhum homem (a forma exterior material e periódica da Entidade Espiritual), pode ser responsabilizado das conseqüências de seu nascimento. Ele não pede para nascer, nem elege os pais que lhe darão a vida. Sob qualquer aspecto é vítima do que o rodeia; é filho das circunstâncias sobre as quais não tem ação nem poder, e investigando imparcialmente cada uma das suas transgressões, o resultado seria que nove em cada dez casos, ele foi o ofendido e não o ofensor ou pecador. Em essência a vida é um fogo cruel, um mar borrascoso que deve ser cruzado e, às vezes, um peso muito difícil de suportar. Os mais profundos filósofos tentaram em vão penetrar e descobrir sua razão de ser, e todos fracassaram em seu intento, exceto aqueles que possuíam a chave para consegui-lo, isto é, os sábios orientais. Shakespeare descreve a vida como:

"Não é mais que uma sombra errante -  um mau ator

Que se pavoneia e se agita quando entra em cena,

E do qual não se ouve mais falar; é um conto,

Narrado ruidosa e furiosamente por um louco,

Significando nada..."

Nada é em suas partes separadas, mas sem dúvida é da maior importância, em sua coletividade ou série de vidas. De qualquer maneira, quase todas as vidas individuais, em seu completo desenvolvimento, são um sofrimento. E haveríamos de acreditar que o homem desgraçado e desamparado, batido pelas enfurecidas ondas da vida, se não consegue resistir e se vê arrastado por elas, há de ser castigado com uma condenação eterna, ou sequer a uma pena passageira? Jamais. Grande ou vulgar pecador, bom ou mau, culpado ou inocente, uma vez livre do peso da vida, o Manu ("Ego pensante"), exausto e consumido, adquiriu o direito de um período de bem-aventurança e repouso absolutos. A mesma Lei infalível, sábia e justa, mais do que misericordiosa, que inflige ao Ego na carne o castigo kármico a cada pecado cometido durante a vida anterior na terra, prepara à entidade agora desencarnada, um longo período de descanso mental, isto é, o completo esquecimento de todos os acontecimentos infelizes e até dos pensamentos dolorosos mais insignificantes, pelos que passou como personalidade em sua última vida; deixando na memória da alma somente a reminiscência do que foi feliz. Plotino, que afirmou ser nosso corpo o verdadeiro rio Leteu, porque "as almas que nele submergem tudo esquecem", queria dizer alguma coisa além do que disse. Porque assim como nosso corpo terrestre se assemelha ao rio Leteu, o mesmo sucede com nosso corpo celeste em Devakhan, e muito mais.

 

P: Deve-se então acreditar que o assassino, o transgressor da lei divina e humana, não recebe nenhum castigo?

T: Quem disse isso? Nossa filosofia tem uma doutrina de castigo tão severa como a do calvinista mais rigoroso, porém, muito mais filosófica e de acordo com a justiça absoluta. Nenhum ato, nem mesmo um pensamento culpável, deixará de receber o seu castigo; mais severamente este último que o primeiro, porque é muito mais potente e eficaz na criação de maus resultados, que o próprio ato[2]. Acreditamos em uma Lei de retribuição infalível, chamada Karma, que se afirma a si mesma em um encadeamento natural de causas, de resultados ou conseqüências inevitáveis.

 

P:  Como e onde funciona essa lei?

T: Cada trabalhador requer seu salário, diz a sabedoria do Evangelho; cada ação boa ou má é um pai prolifero, diz a Sabedoria das Idades. Some as duas sentenças e encontre o "porquê". Depois de haver concedido uma compensação suficiente e até multiplicada à alma libertada dos sofrimentos da vida pessoal, Karma, com seu exército de skandhas, espera na entrada de Devakhan a volta do Ego para assumir uma nova encarnação. É neste momento que o futuro destino do já descansado Ego oscila nas balanças da justa retribuição, ao cair novamente sob a ação da ativa lei kármica. Neste renascimento preparado para ele - - renascimento eleito e disposto por esta misteriosa Lei, inexorável mas infalível em sua eqüidade e sabedoria - - é onde são castigados os pecados cometidos na vida anterior do Ego. Apenas não é em um inferno imaginário, com chamas teatrais e ridículos diabos com rabos e chifres, onde é precipitado o Ego, mas sim nesta terra, plano e região de seus pecados, e onde terá que expiar cada mau pensamento e cada má ação. O que semeou colherá. Ao seu redor a reencarnação reunirá a todos aqueles outros Egos que sofreram — direta ou indiretamente — por culpa da personalidade passada, mesmo que esta não tenha sido mais que um instrumento inconsciente. Serão lançados por Nêmesis no caminho do novo homem, que oculta o antigo, o eterno Ego, e. . .

 

P: Mas aonde está a eqüidade se estas novas "personalidades" ignoram ter pecado ou que tenham pecado contra elas?

T: Deve-se considerar que tenha sido tratado com justiça um casaco que fosse feito em farrapos, quando arrancado das costas do homem que o roubou, por aquele que foi roubado e reconheceu sua propriedade? A nova "personalidade" é como uma roupa nova, com sua forma, cor e qualidades especiais que a caracterizam; mas o homem verdadeiro que a leva é o mesmo pecador de antes. A individualidade é quem sofre por meio de sua "personalidade". Somente isto, e nada além disto, nos pode dar razão da terrível, embora aparente injustiça, na distribuição dos quinhões que tocam ao homem na vida. Nenhum filósofo moderno nos deu uma boa razão por que tantos homens inocentes e aparentemente bons nascem unicamente para sofrer durante toda sua vida; por que tantos nascem pobres a ponto de morrer de fome nas ruas das grandes cidades, abandonados pela sorte e pelos homens; por que uns nascem em casebres enquanto outros vêm à luz dos palácios; por que acontece tão freqüentemente estar a nobreza e a fortuna nas mãos dos homens piores, e raras vezes dos bons; por que existem mendigos, cujo "eu interno" é igual ao dos homens superiores e nobres; só quando tudo isto for satisfatoriamente explicado, quer por seus filósofos quer por seus teólogos, só então terão direito de repelir a teoria da reencarnação. Os maiores poetas entreviram essa verdade das verdades. Shelley acreditou nela, e deve ter sido pensando nela que Shakespeare escreveu sobre a insignificância do nascimento:

"Por que há de reter meu nascimento a meu espírito ascendente?

Não estão todas as criaturas sujeitas ao tempo?

Legiões de mendigos existem na terra,

Cuja origem provém dos reis.

E monarcas há hoje, cujos pais eram

Os miseráveis de sua época..."                         

Mude a palavra "pais" pela de "Egos", e terá a verdade.



[1] Sobre essa transgressão foi baseado o cruel e ilógico dogma dos anjos caídos, que está explicado no vol. II da Doutrina Secreta. Todos os nossos Egos são entidades pensantes e racionais (Manasaputras), que viveram sob forma humana ou outras, no ciclo de vida precedente (Manvantara), e cujo Karma era o de encarnar-se no homem no presente ciclo. Ensinavam nos Mistérios que, deixando de cumprir com esta lei (ou havendo se "negado a criar", como diz o hinduísmo dos Kumara e a lenda cristã do arcanjo São Miguel), isto é, não tendo se encarnado no devido tempo, os corpos que lhes estavam predestinados se corromperam (Veja Stanzas, VIII e IX, nas Slokas de Dzyan, Vol. II da Doutrina Secreta). Daqui nasceu a idéia do pecado original nas formas sem entendimento, e do castigo dos Egos. A lenda dos anjos rebeldes precipitados no inferno é explicada de forma muito simples pelo fato desses Espíritos ou Egos puros verem-se aprisionados em corpos de matéria impura (a carne).

[2] "Eu porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já cometeu adultério com ela em seu coração" (Mateus, V, 28).

 

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